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A causa animal muito bem representada na pessoa de Sheila Moura

Um pouco sobre a Sheila:

Vou completar 67 anos no próximo dia 03 de julho e as coisas que mais me orgulho na vida são meu caráter e meu amor pelos animais . Nasci com as feições muito fechadas e que, contado por minha mãe, se abriam ao ouvir o latido do cachorro do vizinho. Percebendo isso, ela passou a me mostrar animais. Até por uma formiga eu abria um imenso sorriso. Ou seja, levei a pincelada divina de entender e me comunicar com animais. Minha infância foi legal e sempre que minha mãe chegava em casa tinha um cachorro novo…. ela sumia com ele dizendo que ia para casa de Merenice, a minha funcionária. Nunca consegui apurar a verdade. Já adolescente mantinha vários animais em casa com a permissão de minha mãe enquanto fazia duas faculdades. Comecei a trabalhar no dia em que fiz 18 anos e considero que o nascimento do meu filho, aos 23 anos, foi o período marco para calcular o início da minha militância na luta pelos direitos dos animais. Já estava, na ocasião envolvida com a SUIPA, a ONG mais antiga aqui do RJ. Nestes quase 45 anos, posso afirmar que minha vida, apesar de todas minhas ocupações pela sobrevivência do dia a dia, foi ligada aos animais.

 

  • Como começou sua luta pelos animais?

Foi num dia em que vi um atropelamento de um cão. Geralmente atendia meus animais no Hospital de animais do Exército que ficava na Mangueira, bairro aqui do Rio de Janeiro. Mas, neste dia, estava  com cão nos braços sem saber o que fazer. Daí alguém me disse: leva no abrigo de animais… é mais perto…. Fui. Era a SUIPA. E assim comecei a tomar consciência da gravidade que era o abandono e a crueldade praticada contra cães, gatos, cavalos e todos mais. Fiquei como voluntária durante anos na instituição fazendo fiscalização. Durante um tempo, devido a trabalho, me afastei um pouco, mas me mantive como sócia. Em 1993, já aposentada, resolvi a criar minha própria ONG, posto que sempre acreditei que só a educação muda os valores de uma sociedade. E tenho feito isto até hoje das formas que consigo.

 

  • ·         Esta é uma luta difícil. Você encontrou muitos parceiros para sua causa? Não muitos da proteção animal. Mas inúmeros dentro dos órgãos públicos. Percebi, durante algum tempo, que o poder público não fazia nada porque não sabia do que estávamos falando. E foi aí que vi uma grande estrada se abrindo para realizar programas que foram marcantes para a proteção como um todo, como, por exemplo, a castração gratuita. Fomos nós que, em 1995, conseguimos convencer o poder público (Prefeitura do Rio) que castrar um animal seria muito mais barato do que matar. Este programa serviu  de pontapé inicial para muitos companheiros de outros Estados. É um dos meus maiores orgulhos e sou muito grata por ter sido escolhida por Deus para tal.

 

  • Como é seu trabalho? Pelo que a gente vê, você “põe a mão na massa” quando fica indignada e fala o que tem que ser dito quando a maioria não se pronuncia. Já teve alguma situação que a fez se arrepender? Atualmente, exerço nossa militância através de um blog, já que, fundamentalmente, nossa ONG é voltada à Educação. Isto considerando que “Educar é fazer pensar”. Com o advento da Internet vi que podíamos atuar em várias frentes de trabalho promovendo a conscientização da sociedade como um todo para as questões do direito animal e intervir de várias formas em todo país como até, por exemplo, o cancelamento de eventos:  http://www.ogritodobicho.com/2009/09/touradas-em-aguas-de-lindoia.html 

Agora, realmente, nossa característica é “mão na massa” sim e falar o que é e quando é preciso. Não tenho compromisso com pessoas e sim com a causa do direito animal. Meus patrões são, única e exclusivamente, os animais. Lamento que as  pessoas não se profissionalizem para defender esta causa. Bato muito nesta tecla quando faço as postagens e realmente fico furiosa quando as pessoas não se pronunciam numa determinada chamada de participação ou, pior, se pronunciam sem responsabilidade trazendo mais dificuldades a alcançar determinado objetivo. Quanto a me arrepender, não me lembro de nenhuma…. mas diria sem problemas porque estamos na vida para aprender sempre.

 

  • ·         Uma das situações que se envolveu, sobre o caso do cãozinho que foi abandonado e seguiu seu dono no carro no congestionamento, como você conseguiu encontrar o cão numa cidade como SP? Hoje ele está bem? Realmente, este caso posso dizer que foi o que mais me tocou por estar tão distante, já que aconteceu em SP e eu  no Rio. Ofereci recompensa e tudo mais. Não dormi desde que vi a cena daquele abandono. Talvez eu estivesse passando um momento grande de fragilidade emocional e por isso tenha me abalado tanto. A impotência que senti foi de arrasar….. Mas, graças a Deus, a Pretinha foi encontrada e segundo se sabe, está muito bem com uma nova dona. http://www.ogritodobicho.com/2013/12/o-final-feliz-e-meu-desabafo-sobre.html

 

  • E o caso da yorkshire que foi morta? Você se envolveu profundamente também.

Sim, fizemos uma grande campanha em parceria com uma protetora de SP que havia criado uma petição que alcançou mais de 400 mil assinaturas. Além do processo criminal, conseguimos convencer um promotor de justiça a abrir um processo civil de indenização por danos morais coletivos. Agora, este caso considero um escárnio da justiça de nosso país. Desde 25/01/12 a coisa está rendendo nos tribunais de Formosa, cidade que ocorreu o crime. Até quando podíamos nos informar via telefone, nos diziam que o Juiz dava prioridades aos casos graves e que este processo da yorkshire entrava numa fila de processos de amenidades. Insistimos muito e fazíamos uma pressão durante as audiências de julgamento e isto, simplesmente, levou ao Juiz a colocar o processo em sigilo de justiça. Ou seja, ligue a vontade porque ninguém vai te dar uma informação. Acompanhamos somente através do site do Tribunal de Goiás e o último andamento foi que estava com carga para o MP em 10/01/14…. Enfim, é ou não um escárnio? Se bem que, diante de tantos outros em nosso país, é apenas mais um…. Se alguém quiser acompanhar, é só entrar nesta postagem que fizemos em especial:  http://www.ogritodobicho.com/2012/05/sobre-o-andamento-do-caso-da-yorkshire.html

 

  • Sobre os maus-tratos, o que você tem a dizer?

É um termo interpretativo. Seria maus-tratos manter um animal numa corrente corredeira se ele tiver a característica de ser fujão? Seria maus-tratos usar um cavalo em serviços no campo? E por aí afora…. Quando houve a regulamentação da lei de crimes ambientais 9605/98, tentamos anexar uma definição do que seria maus-tratos para que, na composição de uma ação criminal, maus-tratos não fosse algo interpretativo. Infelizmente, graças a um protetor de SP, este anexo foi retirado da mesa do Fernando Henrique quando este assinou o Decreto de Regulamentação da referida lei. Quase morri, posto que havíamos rodado o país com o Procurador do Ministério do Meio Ambiente na discussão desta Regulamentação recebendo o aval das autoridades de cada Estado.  Recentemente, entrei em conflito com um grupo de protetores de SP que sugeriram modificações perigosas nesta lei para que entrasse no novo Código Penal. Pior que foi aprovado e lá se foi para o Senado decidir. Eu havia opinado de que tudo deveria ser mantido com estava e, no referido Código Penal, teríamos este anexo que definiria o que seria maus-tratos. Simples assim. Mas, parece que este “grupo” preferiu o mais arriscado. A conferir. Aliás, a continuar como está a discussão do PL no Senado, vamos perder até o que conquistamos em 1998 através da Lei de Crimes Ambientais.

 

  • ·         Sobre o abandono? Alguma idéia para minimizar a situação dos animais de rua, além da castração? (O que acha da microchipagem e multa)

Sou a favor de uma propaganda forte educacional na imprensa sobre a situação de que é crime de maus-tratos (interpretativo) o abandono e que toda sociedade deve castrar seus animais. Todo município deveria ter programa em massa de castração de cães e gatos. Infelizmente, acho que apenas uns 30% das prefeituras tem tais programas e as que têm são bem modestos. Microchipagem é um grande recurso para se achar animais perdidos e responsabilizar pessoas que os abandonam, sem dúvida.

 

  • O que está sendo feito no Brasil pelos animais?

Acho meio relativo. Sempre chamo a atenção da proteção sobre esta falta de informação que é achar que é através do legislativo que vamos encontrar soluções para todos os problemas. Leis têm a sua importância, evidentemente. Mas é no Executivo que temos que atuar diretamente. 99% dos programas de castração conseguidos nas cidades foram conquistados através da cobrança da proteção ao Executivo. Enquanto alguns protetores insistem em ficar atrás de vereador para que ele faça um PL, outros sacam que isto é ação de um prefeito. Daí caem em campo, batalham enchendo a paciência e fazendo pressão para daí correrem para o abraço. Nos outros setores, há também um grande prejuízo por esta insistência de esperar a lei para proibirem isto ou aquilo. Um Prefeito ou Governador bem “trabalhado” por uma cabeça pensante da proteção animal, pode, com seus Decretos, fazer uma revolução a favor dos animais.

 

  • Algum exemplo a ser seguido, no país e no mundo?

Acho que nosso país já tem legislação (não o necessário) para sermos um belo exemplo para o mundo. Agora, a gente lê, aqui e acolá, situações que nos encantam em determinado país. Mas, sinceramente, diante das tragédias de outros países, no Brasil é muito razoável de se trabalhar pelos animais. Em países da Europa que têm as questões culturais (touradas, corridas, eventos religiosos, etc) é bem mais complicado. Se pensarmos nos países asiáticos, aí fica insuportável entender tamanha crueldade praticada com animais.  Até recentemente, fiz uma publicação falando sobre o povo japonês, que é incrivelmente maravilhoso em questões culturais, mas ainda permite a crueldade da caça de baleias e a matança de golfinhos em uma de suas cidades litorâneas. É difícil dizer se é cultura, tradição, condições econômicas, etc….. Acho que cada caso é um caso. E não dá para entender. Exemplo? A farra do boi no Brasil: já provamos que não é cultural, que é crime reconhecido pelo STF, que o governo de SC tem obrigação de não deixar que ela aconteça…. E no final? Ela acontece….. infelizmente…. Vai explicar?

 

  • Dica Animal para quem quer ajudar

Minha vida, crença e ação foram sempre pensando na educação que qualquer um pode fazer. Sempre orientamos os cidadãos que querem fazer uma pequena e valorosa contribuição no processo de respeito pela vida animal que imprima dicas de como tratar seu animal, de legislação sobre os direitos dos animais, como mantê-lo de forma saudável sempre celebrando a sua existência, enfim, sobre todo este vasto material que a internet oferece. Daí, passe a andar com isso na bolsa para entregar nas diversas ocasiões, além de distribuí-lo nas casas da rua que mora, nos eventos que vá, nos passeios que der, nas lojas de comércio perto de suas casas, etc. Enfim, é simples, fácil e de uma importância incalculável.